Um relato de outros “eventos” importantes no Pedal Anchieta 2018
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Um relato de outros “eventos” importantes no Pedal Anchieta 2018

“Muitos irão se recordar apenas das emoções de descer a via e eu irei me recordar da vida das pessoas que passaram pela via”

 

Durante anos brigamos para que tivéssemos uma rota de descida até o litoral. Vários de nossos amigos ciclistas levaram bomba no ano passado, por tentar fazer valer este nosso direito de transitar com a bicicleta pelas cidades. No dia 02 de dezembro de 2018, um domingo com tempo nublado, com ameaça de chuva, não teve ameaça de bomba, pois a Polícia agora estava ao nosso lado. E o Governador Márcio França nos deu o apoio merecido de fazer a descida até a cidade de Santos.

Sem entrar nos detalhes de como chegamos até este momento e sequer dizer ou detalhar como foi épica esta descida, pois estes relatos encontraremos em mais de 40.000 páginas de Facebook, Instagram, Twitter entre outros blogs e portais de notícias, eu tenho a difícil missão de mostrar um lado mais emocionante do Pedal Anchieta 2018. E para isto, tive a sorte de encontrar duas histórias de vida que farão com que repensamos nossos conceitos de vida, de liberdade, de andar de bicicleta.

Inicialmente, eu, o Ciclonauta Urbano, estava como parte da equipe de apoio (mesmo sem o colete laranja), ajudando aos milhares de ciclistas a seguir o curso com total segurança, alertando sobre os possíveis problemas na pista, socorrendo ciclistas de acidentes/incidentes (tanto físicos quanto mecânicos), além de também narrar o momento, no caminhão do som, junto com o grande Aparecido Inácio Ferrari de Medeiros, nosso cicloadvogado/cicloativista/cicloamigo e um dos maiores articuladores e mentores para a criação do Pedal Anchieta. Durante estas funções também registrei em fotos e vídeos outros ciclistas que passavam ao meu lado. Em um momento, encontrei com a Dona Vera Nilza e o seu filho Gabriel. Mãe de outros 3 filhos e moradora de Arujá, ela foi incentivada pelo irmão ciclista e acabou se apaixonando pela bicicleta, mas sem deixar de fora seu filho caçula Gabriel, adotado aos 3 meses de idade, que ganhou um espaço todo espacial na nova bicicleta, aliás um triciclo todo especial, assim como ele. Quando decidiu participar do Pedal Anchieta com o Gabriel, todos a chamaram de louca, mas ela, ciente de sua capacidade, seguiu adiante em seu intuito de pedalar na Rodovia até o litoral paulista para a sua alegria e mais ainda a de seu filho. Já no Pedal Anchieta, ela pedalando seu triciclo com uma caixa de isopor no bagageiro e o Gabriel sentadinho na cadeira da frente, todo feliz, se agitando ao ar como se estivesse pedalando. Uma imagem de pura alegria e felicidade. Um momento mágico, daqueles que ficarão registrados na memória. Ela pedalou todo o percurso, boa parte tendo o auxílio de outros ciclistas com uma ‘mãozinha’ nas subidas (eu e o Kiko da Mobike inclusive). Dona Vera, que também era pura energia e sorriso, tão feliz quanto o Gabriel, vibrando mais que qualquer outro ciclista com aquele momento de pedalar por uma rodovia, rumo ao litoral. Sem demonstrar fadiga, nem desânimo, só sorrisos e acenos, como uma estrela em meio ao seu público, que só não a aplaudiu porque tinham que estar com as mãos no guidão por segurança. O Gabrielzinho participava ativamente, só observando a passagem das bicicletas e seus ciclistas. E eu só imaginando como aquele menininho iria reagir quando visse o mar, pois a sensação de pedalar, o vento no rosto e a adrenalina ele já tinha experimentado. Queria ter visto, mas os perdi de vista ao chegar em Santos. A Dona Vera Nilza e o Gabrielzinho realmente me representaram em muitos aspectos. Foram um dos maiores exemplos de como a bicicleta pode transformar vidas, as deles e as dos demais que por eles passaram.

(Obs.: em conversa posterior ao Pedal Anchieta, Dona Vera relatou para mim que sempre teve, seguindo em paralelo na Rodovia, um carro de apoio para o caso de problemas ou desistência, algo que não ocorreu. De acordo com ela, Gabriel dormiu por uns 10 minutos, durante o percurso e não reclamou quase em nenhum momento, nem quando tomaram “toda a chuva do mundo” ao chegar em Santos, algo que ele adorou e comemorou. Aliás, não ficou doente depois, sem gripe ou resfriado e nem mesmo com o narizinho escorrendo, como diriam alguns. Realmente, o carinho, a dedicação e o amor de mãe, além de ir de bicicleta para Santos, são um “santo remédio”!)

 

Tudo o que narrei acima seria facilmente esquecido por alguns que os vissem se não fosse por um detalhe: Gabriel é portador de necessidades especiais. Foi emocionante ver a força que aquela mulher empregou para dar a ela e ao filho o gosto de estar ali, exercendo o seu direito de pedalar, chegar a praia e se divertirem. Jamais vou esquecer. Ele estará marcado no meu coração.

Se eu já achava que minha cicloviagem tinha tido emoção suficiente e histórias que me marcariam para sempre, nem imaginava o que estava por vir. Ocorrido bem no final de semana da Virada Inclusiva, ao qual não pude sequer participar este ano, a história da Dona Vera e do pequeno Gabriel me deixou feliz, principalmente como exemplo de superação e determinação. Já tendo aportado minha nave ciclística na praia, encontrei amigos “náufragos” de grupos que se dispersaram. Fomos almoçar e depois percorremos a orla. E foi justamente no momento “pós molhadinha de pé no mar”, em uma sessão de fotos com amigos que encontrei a pessoa que fez minha descida ao litoral ter seu ponto mais alto. Ele surgiu em sua bike “invocada”, com seu guidão ao estilo caiçara, que fui registrando na câmera esportiva. Um triciclo baixo, quase uma reclinada. Ele parou diante de mim e me disse com dificuldade na voz:

– Eu te conheço!

Fiquei surpreso, pois posso esquecer nomes, mas pessoas raramente esqueço. Então disse:

– Rapaz, que legal! Se disser quem eu sou, vai ganhar mais uma foto!

– Mas eu te conheço, sei quem você é!

– Aí meu deus, não me diga que tô te devendo dinheiro…

Ele riu gostoso e continuou:

– Esqueci seu nome. Me dá uma dica!

– Ok, meu nome começa com CICLO…! (olha só a minha pretensão, achando que o garoto me conhecia como o defensor das Ciclovias e Ciclofaixas… essa eu achei que fui muito sem noção! Hahahaha)
– Não sei! Não lembro! Dá outra dica!

– Meu segundo nome é URBANO! (piorei, meu ego estava se sentindo! Achei que fosse um fã, um seguidor… Hahahaha)

– Não sei mesmo. Mas eu te conheço!

– Eu sou o CICLONAUTA URBANO (só faltou o som do trim-trim da buzininha da bike para me anunciar)

– Ciclonauta Urbano?! Então eu não te conheço…

Todos rimos muito, inclusive ele. Foi quando eu finalmente me apresentei corretamente.

– Sou o Anderson. E você?!

– Adivinha!

– Dá uma dica para mim…

– Começa com “L”…

– Lauro?!

– Não!

– Luís?!

– Não… A segunda letra é “E”…

– Eu sei… LEANDRO?!

Nosso novo amigo ria muito. Estava realmente se divertindo com a situação. Ao que o meu xará Anderson Sutherland diz:

– É LEONARDO?!

– ACERTOU!!!! (Leonardo, festejava como se o time dele tivesse conquistado uma partida final do campeonato de adivinhações)

E eu, fingindo indignação por não ter tido tempo de responder antes, simulava uma briga verbal com o meu xará, falando que isso não podia, não valia, “era eu quem tinha que responder” entre outras coisas. Feitas as apresentações, nosso novo amigo Leonardo comentou que estava feliz por ter conhecido eu e o grupo. Disse que adorava andar de bicicleta, que já tinha se deslocado com ela até a Praia Grande, até o Guarujá, mas já estava desmotivado de pedalar por ali.

– Tudo igual, nada muda!

– Mas, Léo, podemos fazer caminhos diferentes!

– Mas só vou pela ciclovia!

Ele também contou o perigo de atravessar a Ponte Pênsil de São Vicente.

– É perigoso se vem outro ciclista. Pode bater e enroscar no meu guidão (ele gesticula com as mãos no ar uma simulação de batida)

Leonardo estava irradiante e falador. Não o conhecia, nem ele a minha pessoa e nem os meus amigos, mas insistia que sim, me conhecia. E dizia de tempos em tempos:

– Qual o seu nome mesmo?! Tô perguntando de novo, porque posso esquecer…

Mesmo assim estávamos próximos, como se realmente nos conhecêssemos, mas há tempos não nos víamos. Relatou também a sua vontade de fazer faculdade.

– Quero fazer faculdade!

– Do que Léo?!

– Educação Física…

Pensei, mas não falei que tinha tudo a ver com sua paixão atual: a bicicleta.

Perguntou de onde éramos, disse onde morava, onde guardava a bicicleta e quando voltássemos ele seria nosso guia pela cidade.

Hora e meia depois, ao nos despedirmos, ele ainda nos lembrou de algo importante:

– Feliz Natal para vocês!

Abracei ele com a emoção de alguém que realmente esqueceu de muitas coisas boas que podemos fazer juntos, como comemorar uma data importante como o Natal.

Foi realmente outra lição de vida que está marcada em mim agora, mais do que a perene marca que o calor da Baixada deixou em minha pele.

– Obrigado Leonardo! Feliz Natal para você e toda a sua família.

Ele seguiu pela ciclovia, com os pais atrás, ambos de bicicletas.

E nós seguimos procurando um lugar para se alimentar antes de partir para a Capital.

Só tenho a agradecer que o Pedal Anchieta tenha me proporcionado momentos de rara emoção e beleza, até muito maior do que poder descer a Serra do Mar de Bicicleta, de sentir o cheiro da Mata Atlântica, a brisa do Mar, o ar mais puro sem o fluxo de carros e caminhões. Peço agora a Deus (ou a qualquer divindade superior) que possa no ano que vem reencontrar com estas mesmas pessoas e poder viver uma nova experiência de vida, me emocionar como me emocionei, rir como eu ri, fazer a todos rirem de mim e minhas piores piadas, histórias ou aventura. Obrigado a todos os amigos que ficaram comigo neste momento lindo!

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Para entender esta história, veja uma parte de como foi o pedal da Dona Vera:

https://youtu.be/oACez2vHHTw

https://youtu.be/gB2VgynF1d4

E conheçam o Leonardo e seu triciclo:

https://youtu.be/ecrZE1wVgAU

https://youtu.be/CNE3oqMdxGk

https://youtu.be/KguchXGCFQY

https://youtu.be/xojDnBFxzss

 

 

 



Publicado em: 12/12/2018 - Atualizado em: 12/12/2018

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