A lógica da matemática e da filosofia nos ajudando a vencer barreiras e preconceitos
Vida Urbana

A lógica da matemática e da filosofia nos ajudando a vencer barreiras e preconceitos

Todos os dias nos deparamos com situações difíceis de lidar, ao explicarmos os motivos de se usar a bicicleta como meio de transporte, a LOUCOmoção diária, pois a maioria da população paulistana conservadora acredita que sirva só para lazer, exercício físico ou para atrapalhar sua LOUCOmoção de carro ou transporte público pelas ruas já congestionadas da cidade (cito São Paulo, mas pode ser qualquer cidade brasileira). Não é fácil, mas também não é impossível mudarmos o pensamento destas pessoas.

Pre-FÁCIL não tão difícil de entender

Hoje pela manhã, antes de sair de casa, na cozinha, lavando a louça, zapeie os canais e cai no UNIVESP TV da MultiCultura, canal digital 2-2, se não me falha a memória agora, onde o assunto era “Lógica”, cujo o professor contava a história do matemático, lógico e filósofo americano mais conhecido por QUINE, um dos mais importantes do século passado. Seu nome completo, para quem se interessar é Willard van Orman Quine. Importante dizer também, que esta ilustre figura, professor de Harvard, teve uma passagem pela USP na década de 40 e escreveu um livro em português (sim, em PORTUGUÊS, pois era fluente em várias línguas), o “O Sentido da Nova Lógica”, um compêndio de suas palestras e conferências no período em que ficou no Brasil. Voltemos ao programa, que me fez lembrar deste matemático, que confesso, já havia se apagado da minha memória RAM, e que o professor citou a “verdade lógica” famosa de Quine: “Nenhum homem solteiro é casado!”. Parece óbvio ou uma piada, mas poucos se atentam para a questão de que é uma lógica que não dá outro caminho senão a de que é pura verdade, a verdade lógica.
E o que isso tem a ver com a Bicicleta?!
Bom, depois de ter assistido um trecho do programa, na realidade uma aula da UNIVESP TV, me lembrei das aulas de matemática e lógica, de minha primeira faculdade: Ciências da Computação, que nada mais era do que Bacharelado em Matemática, na longínqua década de 90. Guardei as informações na cabeça e sai para compromissos e trabalhos.

Capítulo único

Sábado, no final da tarde, lembrei de um convite de aniversário de uma grande amiga, que há um tempo não nos encontrávamos e resolvi passar na festa da casa dela. Cheguei no início da noite de bicicleta, como sempre, em uma rua da Zona Norte, entulhada de carros estacionados, um coladinho no outro. Toquei a campainha, abriram o portão e lá entro eu e minha magrela para espanto dos mais de 50 convidados, elegantérrimos em suas camisas sociais, polos de grife e seus relógios brilhantes. Olhares de desaprovação, ou desprezo, por acharam que “um entregador” ou “subalterno” invadiu o ambiente. Segundos depois, sou recepcionado pela dona da festa com um efusivo “Você veio, seu maluco?! E veio de bicicleta mesmo?!”. Agora os olhares eram de espanto pela elegante anfitriã ter abraçado e beijado um suado ciclista, além de conhecê-lo e tratá-lo bem. Coloco a bicicleta em um canto, que mais deu destaque ainda ao Óvni Ciclístico, bem perto da piscina, na qual só as crianças se divertiam. Sou apresentado a boa parte dos convivas como um amigo que além de padrinho de casamento era padrinho da “criança” mais velha dela, hoje uma adolescente quase adulta, que não estava presente, também fui alcunhado de ‘um louco que jogou tudo para o alto e, hoje, não tendo mais carro, só me LOUCOmovia de bicicleta pela cidade’. Sem exageros, virei atração de um circo onde aberrações eram apresentadas à sociedade vitoriana dos séculos passados. Começaram com perguntas básicas como “Não é perigoso?!” ou “Porque não comprou uma motocicleta?!” ou “Como assim não renovou sua CNH desde 2008?!”. Um círculo se fechou ao meu redor quando comecei a contar as mudanças que a bicicleta me trouxe ao longo destes quase 18 anos. Muitos achavam que eu era excêntrico, devido ser publicitário (sim, também sou formado em Publicidade). Depois de mais de uma hora de uma divertida explanação, pelo menos da minha parte, começaram as críticas mais ferozes ao governo anterior, que jogou ciclo-guaches por toda a cidade, críticas também às conduções irresponsáveis de “todos” os ciclistas que trafegam pelas ruas e avenidas, entre outras que não caberiam aqui neste meu breve relato. Expliquei calmamente que nós somos sim parte do trânsito, que somos veículos, que podemos transitar pelas vias urbanas e estradas. A grande maioria discordava, dizendo que era um absurdo, por que era um brinquedo ou atrapalhava o fluxo do trânsito de carros, por que era perigoso, que era melhor só pedalar nas ciclovias ou ciclofaixas de lazer, que também nem deveriam existir, já que não permitiam a circulação segura dos carros aos domingos e feriados, entre outras falácias que só quem ou comprou a CNH ou aprendeu antes da mudança do Código de Trânsito Brasileiro poderia pensar. Já me sentia exausto e quase sem forças para defender quando eu lembrei da “lógica verdadeira”. Disse mais ou menos assim: “Porque a bicicleta pode deixar seus caminhos livres pelas manhãs para que vocês cheguem cedo no trabalho? Por que, além de tirar um carro da rua, assim ocupando um espaço muito menor, ela é mais ágil e não fica parada no trânsito, ou seja, quanto mais ciclistas nas ciclovias/ciclofaixas, menos carros, maiores velocidades médias, menor tempo de percurso. Agora, porque ir de bicicleta? Me respondam!”. Não ouvi nada além de outros sons externos àquele círculo ao meu redor. Retomei dizendo que “os benefícios são quase imediatos, no tempo de deslocamento, na saúde física e mental, no aproveitamento do tempo que evitaria stress, na percepção da cidade ao seu redor, sem os limites do bólido metálico que só permite uma visão parcial, entre vários benefícios ao ciclista e à cidade”, ao que escuto um “Mas vou chegar suado. Por isso vou de carro com o ar condicionado bombando!”. Minha réplica foi “você tem problemas respiratórios?”, recebendo um sonoro “não” e um desmentido sequencial da esposa do cidadão, relatando que ele tinha “sim”, rinite forte e que causavam dores de cabeça constante. “E como seria sua vida se não tivesse estes problemas?”, um silêncio e olhares para o cidadão, que respondeu um “talvez bem melhor”. Continuei questionando sobre o que pensavam enquanto estavam presos ao trânsito, quase todos respondendo que só queriam se livrar dele rápido, um disse que seria ótimo ter um helicóptero. “Helicóptero?! Sua casa deveria ser tão grande quanto o Campo de Marte, mas como não deve ser, você teria que se deslocar de carro até um heliponto ou heliporto mais próximo, o que demoraria, mas o vôo em si é rápido. Depois teria que descer em outro heliponto. Mas, e se este heliponto não fosse no prédio do seu trabalho? Novo deslocamento de carro e mais trânsito!”. Muitas cabeças acabaram concordando. Pela média das pessoas que estavam lá, quase todos morando em bairros nobres e se deslocando para menos ou um pouco mais de 10 Km de distância entre casa e trabalho, mas que relataram ficar parados entre uma hora a quase duas entre cada trajeto. Calculando uma velocidade média de 15 Km/H, para um ciclista iniciante, se eles começassem a fazer o mesmo percurso de bicicleta, o tempo seria obviamente menor. Silêncio, olhares entre si, cálculos de cabeça, eu presumo, e depois alguns esboços de aprovação. Mesmo assim, muitos contrariados e buscando argumentos contrários. Mulheres dizendo que seria difícil chegar inteiras nos trabalhos, cabelos emaranhados, maquiagem borrada, sem como se recomporem antes de entrar em seus trabalhos. Outra questão que coloquei foram se existiam vestiários nos prédios, muitos não sabiam ou diziam que isso eram coisas para os demais empregados. Mas porque não para eles também?! Puro preconceito. Pura segregação. Ouço um “realmente de bicicleta não dá, é muito stress!”. Como assim?! Relembro a frase de Quine, que diz “não existem solteiros casados” e lanço no ar. Alguns riem, outros ficam pensativos, outros sequer entendem. “Eu explico: se não existem homens ou mulheres solteiras casados, também não existem ciclistas estressados com o percurso livre de congestionamento! Experimentem!”. Coincidentemente, a anfitrião, neste momento chama a atenção de todos para algumas palavras de agradecimento e assim se encerrava o círculo ao meu redor. E, finalmente, pude degustar dos acepipes e petiscos ali servidos, mas por breves instantes, por desta vez sou cercado por novos simpatizantes da “magrela”. Três mulheres e dois homens puxam novamente o assunto agradecendo os esclarecimentos, pedindo dicas e ajuda em como fazer a migração do carro para a bicicleta. Minha régua da felicidade explodiu naquele momento. Furei a barreira e convenci de que é possível convencer com bom humor e “pequenas questões de lógica” o uso da bicicleta.

EpíLOGO e breve

Horas depois, ao se despedir de mim um senhor, se vira e diz “não concordo contigo, além do mais existe homem solteiro casado sim!”. Realmente, neste mundo tem muita gente que não nos ouve ou só ouve o que quer ouvir e que não tem lógica alguma em seus pensamentos! Melhor não insistir, pois poderia fazer com que entrasse em colapso os poucos neurônios sóbrios ou não senis na caixa encefálica dele.

Obs.: Ao sair quase 10 minutos depois deste senhor carrocrata ilógico, dono de um destes carros de executivo chique, ultrapassei suavemente, acenando, isto sem precisar furar sinais ou “acelerar” feito um maluco, já em uma avenida de trânsito lento. Será que ele aprendeu a lição na prática?!



Publicado em: 19/03/2018 - Atualizado em: 19/03/2018

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