Cicloviagem de São Paulo a Montevideo (Parte 3/4)
Cicloturismo

Cicloviagem de São Paulo a Montevideo (Parte 3/4)

O corpo cansou e a mente salvou

A chegada a Torres-RS foi no fim da noite, por volta das 23 horas. Seguindo em direção ao camping, fui guiado pela minha esposa via Whatsapp, afinal, havia me perdido e ela foi meu melhor GPS. Encontrava-me bem cansado e ao chegar já estava sendo aguardado pela proprietária. Essa seria minha primeira vez em um acampamento. Não tinha muita noção de como seria a experiência, porém foi tudo muito tranquilo.

Cheguei, montei a barraca e todos que lá estavam olhavam-me com um olhar curioso. Logo fui questionado de onde estava vindo, e eles ficaram maravilhados com a aventura quando respondi que era de São Paulo.


Fui me alimentar após o banho, e acabei por ganhar uma janta colossal e saborosa de uma família de argentinos, com a qual criei um elo muito interessante.   Torres foi, inclusive, a cidade onde fiz meu maior número de amizades.

No outro dia já estava de pé, com corpo cheio de dores devido à longa distância percorrida. Já tinham se tinha passado, afinal, 1200 km em 7 dias de muito pedal.

Meus novos amigos me serviram um belo café da manhã, e dali fui direto para uma farmácia comprar anti-inflamatório e analgésicos. Meu corpo estava muito cansado e dolorido. Eram dores nas pernas, costas e dor de cabeça. Fui obrigado a ficar um dia de repouso e isso foi fantástico!


Torres é uma cidade de lindas paisagens e natureza exuberante e aproveitei para visitar alguns lugares e registrar tudo. O anoitecer chegou e já era hora de mais uma despedida que, aliás, foi cheia de emoção e de uma saudade repentina.

Em meio a essas amizades acabei por receber um convite para me hospedar e Porto Alegre! Foi incrível!  Eu chegaria a Porto Alegre em dois dias, após passar por Osório (cidade dos ventos), meu maior inimigo. A dificuldade com vento triplicou, e o desgaste ressurgiu.

Chegando em Osório tentei me hospedar em uma delegacia. Queria dormir em uma cela, mas não foi possível, pois os policiais não tiveram autorização do superior. Fui então para o quartel do Corpo de Bombeiros.  Fui muito bem recebido e mais uma vez houve outra hospedagem agradabilíssima, com jantar e café da manhã. Após uma noite tranquila de sono era hora de partir rumo a Porto Alegre. Gratidão aos bombeiros.


Para chegar ao próximo destino utilizei a Freeway, via rápida de aproximadamente 100 km. Já na entrada de POA o tráfego de carros era muito intenso, e tive que redobrar a atenção para não correr maiores riscos.

Alguns anos antes havia estado em POA. Reconhecia cada km percorrido, e estava familiarizado com a cidade gaúcha. Meu corpo, porém, apresentava cada vez mais desgaste.

Avancei para a minha hospedagem em um bairro bem agradável, e ao chegar fui muito bem recebido e acomodado.
Minha pretensão era ver o pôr do sol do Guaíba e partir já no dia seguinte. Todavia isso não foi possível, pois meu corpo estava em um estado lastimável, com muitas dores.  Era impossível partir sem uma recuperação mais ampla, e acabei por ficar dois dias em POA.

Foi bom, fiz duas visitas ao lago do Guaíba, acompanhei o pôr do sol em ambas as vezes, e ao meu ver é o mais belo pôr do sol já visto (recomendo)!


Após dois dias de repouso era hora de partir. Saí muito cedo em direção ao cais do porto para realizar a travessia de POA/Guaíba em um catamarã. Pouco mais de 20 minutos depois, já estava em Guaíba.

Percorri 170 km até Camaquã sem dores, estava realmente recuperado. Dormi num hotel muito cômodo, era mesmo só uma noite.

Acordei no domingo e estava tudo fechado. Iria agora para Pelotas, onde a ideia era me hospedar no clube de futebol Brasil de Pelotas, mas ao chegar na cidade fui abordado por um homem, que dissera ter passado por mim na estrada há cerca de 100 km. Me perguntou para onde eu iria, e respondi-lhe que iria para Montevideo.

Ele pirou na história, me ofereceu carona até a próxima cidade e posteriormente hospedagem em sua fazenda. Tanto ele quanto eu tínhamos um pé atrás nessa relação de amizade que estava por se iniciar. Bobeira nossa, o Beto me mostrou lugares incríveis, onde eu não iria passar.

Beto era um homem de bem e muito generoso. Hospedou-me, explicou como eu deveria agir ao chegar na aduana uruguaia e o que estaria por vir.
Na noite que dormi na sua fazenda, seu caseiro fez uma janta incrível. Ao acordar seus cavalos foram nos receber debaixo de sua imensa figueira, onde eu apreciava o chimarrão (bebida típica do sul).

Beto sugeriu um passeio a cavalo até a praia, onde havíamos passado no dia anterior. Não pude aceitar, pois iria comprometer meu planejamento. Respondi que um dia eu voltaria com a família, e ele disse que iria aguardar. Parti mais uma vez com o coração na mão. Eu até poderia ficar, mas eu tinha um propósito onde certas situações não caberiam no roteiro.

Faltavam pouco mais de 200 km para chegar a fronteira. A estrada era uma planície sem fim e a temperatura já estava baixando um pouco. Na beira da estrada não havia nada, a não ser gado e mais gado nas gigantescas fazendas. A noite já caía e nada de chegar uma cidade próxima. Resolvi então acampar na beira da estrada. Acampamento montado, era hora de dormir. Foi uma experiência bem intensa comigo mesmo. O dia amanheceu e parti rumo ao meu destino, dá-lhe planície.  Passei por Santa Vitória do Palmar, já estava a 20 km do Chuí, extremo sul do Brasil. Eu iria chegar ao Uruguai em alguns minutos.

Foi quando vi uma placa mostrando a entrada para à praia do Hermenegildo, não pensei duas vezes e entrei. Foram 15 km até o local paradisíaco, um lugar sublime e tranquilo. Pedalando por ali todos me observavam. Parei numa praça onde senhores jogavam bocha; fiquei analisando e fui convidado a jogar. Aceitei e mais uma vez fiz amizades. Dessa vez com um juiz de futebol, o “Pelado”, gente de bem. Me mostrou a cidade, me apresentou até para líderes políticos. Ganhei hospedagem mais uma vez, com cerveja e pastéis de aperitivo (muito bom).

Pelado, era muito conhecido na localidade. Fui apresentado a boa parte da cidade e mais uma vez outro elo de amizade foi criado.

Eu tinha que partir rumo ao meu destino, seriam apenas 35 km até o Chuí, Cheguei em duas horas na fronteira com o Uruguai e lá encontrei meu amigo Beto, ele havia ido para abastecer seu veículo (valor do combustível muito mais em conta). Beto me orientou mais uma vez como deveria proceder. Não tinha erro, eu havia chegado ao Uruguai, mas minha meta não estava realiza.
Essa que era Montevideo, mais 500 km de pedaladas

 



Publicado em: 07/06/2017 - Atualizado em: 07/06/2017

A EasyBikes utiliza imagens arrematadas em pesquisas diárias. Portanto, ressaltamos que algumas imagens não são de nossa autoria ou cedidos formalmente para utilização no site. Por favor entre em contato pelo nosso formulário caso seja o autor de alguma imagem utilizada e gostaria que a mesma fosse removida.