Cicloturismo

Ciclista carioca cruza a África em bike de bambu no projeto Roda Mundo

Ricardo Martins, de 32 anos, levou um ano e quatro meses para completar trajeto.

Próxima parada:Europa

Ricardo Martins no projeto Roda Mundo: na Tanzânia, a quarta parada na África – Arquivo Pessoal

Por amor à Dulcinéia, Dom Quixote enfrenta o mundo e seus moinhos. Não à toa, o publicitário Ricardo Martins homenageou a sua bicicleta de bambu com o nome da amada de De La Mancha na epopeia particular pelos continentes do planeta. Ao contrário do herói criado pelo espanhol Miguel de Cervantes, que nunca conheceu de fato aquela que o inspirou, o brasileiro tem na versão tupiniquim da heroína a grande companheira. Com ela, já pedalou mais de 14 mil quilômetros, e que o permitiu cruzar toda a África, da Cidade do Cabo, na África do Sul, ao Cairo, no Egito. E assim encerrar a primeira parte do projeto “Roda Mundo” após um ano e quatro meses da sua partida do Rio de Janeiro.

– Sou um leitor compulsivo. Todas as minhas bicicletas sempre tiveram nomes de personagens de livros que me marcaram. Dulcinéia é a donzela do Dom Quixote, um dos meus personagens favoritos. Um viajante que mais erra do que acerta, mas segue, errante e heroico. É meu alter-ego – brinca o publicitário e ciclista, que, fez a volta pela América do Sul a bordo de Capitu (personagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis), que foi roubada.

Ricardo também tem suas histórias quixotescas a contar. Ao fim do projeto, que não tem data certa para terminar, ele vai escrever um livro nos mesmos moldes do “Roda América”, que fez de 2007 a 2011. Antes de pôr a experiência nas páginas, ele vai transmiti-la no TEDx, na Alemanha, no dia 23. Desde as questões de mobilidade urbana – ele também é especializado em planejamento urbano – ao contato com uma cultura totalmente distinta, sem julgamento de valores. E, claro, os perrengues.

Ricardo Martins no projeto Roda Mundo: uma ano e quatro meses pedalando pela África – Arquivo Pessoal

– Minha viagem é um pouco extrema, então me exponho a tudo de bom e ruim. No primeiro dia de viagem, fui roubado na Cidade do Cabo. Meu pneu furou em frente a uma área perigosa do país, e perdi meu tablet, meu kindle, meu teclado, mas mantive meu dinheiro e passaporte. Em Zanzibar, o agricultor fez uma queimada para limpar o terreno, e eu morava perto numa casa de palha, que pegou fogo. Perdi alguns equipamentos também. Na Tanzânia, o bar onde eu ajudava, foi destruído pela polícia, que roubou parte dos meus equipamentos. Tive que recomprar, fazer um novo crowdfunding para conseguir seguir viagem. Já na travessia de regiões com guerra civil, não tive problemas. Agora, no deserto do Saara foi traumático. Estava no Sudão, longe do rio Nilo, e pegava uma média de 50 a 55 graus no verão. Meu termômetro que só ia até 50 graus derreteu e tive que conseguir outro – conta Ricardo, que também teve que colar um dente postiço no meio da viagem. – A coroa descolou depois de 10 anos. Estava na Tanzânia, e o próximo dentista a 500 km adiante, a cinco dias de viagem. Então colei.

O contato com a cultura, diversa como toda a África, no entanto, foi a maior experiência. Para ele, um outro padrão de vida que o fez entender o mundo de uma nova maneira.

– A África é fascinante, pulsante, diferente de tudo o que se imagina. Muito se fala de uma vida considerada primitiva. Mas ela só é assim quando se adota um padrão de referência, que ou é o do primeiro mundo ou o seu próprio. Mas aqui o padrão é simplesmente outro, que vira sua cabeça do avesso. Passei por oito países, conheci pessoas lindas, saudáveis, com tempo para família, trabalhando duro e extremamente hospitaleiras. Além da natureza diversa: há pontos de mergulho, praia, deserto, montanha, selva, savana, tem de tudo … – reflete o ciclista.

Dulcinéia, que também sobreviveu a todos os riscos e aos cerca de 100 quilômetros e oito horas diários de esforço, foi fundamental no processo de aproximação com a cultura local. Com o quadro todo feito de bambu por uma empresa gaúcha, ela aguçou a curiosidade de todos.

– Foi feita sob medida para mim, e o bambu acaba sendo mais resistente por absorver mais impacto. Nos vilarejos, chegar com uma bicicleta mais cara é semelhante a chegar com uma Ferrari. Cria uma distância social muito grande, mesmo que o dono tenha juntado muito dinheiro para comprá-la. Quando se chega com uma bicicleta de bambu, por mais que tenha peças excelentes e caras, as pessoas vão ter atenção no bambu. Estimula a curiosidade, vira uma quebra gelo, e me aproxima das pessoas. Elas olha, perguntam, começa uma conversa e, de repente, você tem um novo amigo – explica Ricardo.

E são os amigos feitos pelo caminho que têm ajudado Ricardo e Dulcinéia a não passarem a noite totalmente ao relento. Nos vilarejos, um pedacindo do quintal é o suficiente para armar a barraca e estacionar a bicicleta. Nas cidades maiores, a hospitalidade costuma ser menor. Porém, nunca lhe faltou guarida:

– Na África do Sul, por ser mais perigoso de noite, costumava dormir nas delegacias, acampando nos pátios. Cheguei a dormir numa cela também. Com ela aberta, pelo menos… No Saara, normalmente as pessoas dormem fora das casas, e eu dormia numa espreguiçadeira, sob o céu estrelado. Absolutamente lindo.

Ricardo Martins no projeto Roda Mundo: paisagens distintas – Arquivo Pessoal

Contudo, o projeto vai além da experiência pessoal. Em parceria com a Coppe-UFRJ e a ONG Transporte Ativo, Ricardo também tem recolhido informações para pesquisas sobre mobilidade urbana e cicloturismo. Depois da África, vai cruzar a Europa. De lá, seguirá para a Ásia. Boa parte da viagem está sendo custeada por crowdfunding. Para a primeira parte, ele arrecadou R$ 15 mil.

– Pegamos alguns questionários e montamos um modelo para ver quais são os problemas encontrados nas cidades mais urbanas e quais soluções foram encontradas. Fomos selecionando pessoas de cidades maiores, de ongs, da sociedade civil, de empresas privadas, e do governo. Com esses questionários prontos, as informações serão compliadas diretamente na UFRJ. A partir daí, será feito um estudo grande do continente. Fizemos o projeto até Moçambique. De lá até o Egito (onde está de férias no momento) estamos refazendo a logística – explica.

 

Pelas andanças pelo mundo, Ricardo é taxativo sobre a sociedade carrocrata que todos os continentes se transformaram. Cada um se encontra em graus distintos.

– A Europa era extremamente carrocrata: tinha carros demais, combustível esgotou, e por saturar todos os meios, foi obrigada a investir em transporte público e caminhabilidade. No Brasil, agora estamos começando a esgotar nossos meios e espaço, e fazemos o que a Europa fez 30, 40 anos atrás. Não necessariamente porque eles são mais ou menos evoluídos. É muito nítido quando compara com a África, que tem mais recurso para queimar e mais espaço para expandir o carro. É um processo cíclico – analisa.

No futuro, acredita, muitas Dulcinéias, como a sua, terão o merecido espaço.

 



Publicado em: 01/09/2017 - Atualizado em: 01/09/2017

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